
Permitir vem do verbo latino permittiére que significa “deixar seguir” ou “consentir”, dá licença para alguém fazer algo, autorizar, dar liberdade para que algo aconteça ou seja feito. Entretanto, a forma pronominal permitir-se , requer reflexão mais complexa, visto que , o pronome oblíquo “se” está a nos dizer que a ação recai sobre a pessoa que a pratica e, nesse caso, saimos da análise morfossintática e adentramos em campos filosóficos, ideológicos, jurídicos, enfim. Permitir-se , verbo transitivo direto, requer complemento, para consolidar sua ação, requer coragem, destemor, desatino e se potencializa quando encontra verbo congênere, representado pelo “foda-se”. Esse preâmbulo é uma forma de encontrar o caminho cognitivo para falar acerca do filme sueco “Je m’apelle Agneta”, ou Meu nome é Agneta, baseado no livro homônimo de Emma Hamberg, foi produzido por Anna Sofia Mörek e dirigido por Johanna Runevad.
Comecei a assistir à obra (Netflix) , desanimada e cheguei ao seu final, em lágrimas , com uma vontade louca de libertar gritos sufocados, travados desde tempos imemoriais . Agneta , interpretada por Eva Melander , representa muitas mulheres 49+ e o não sentido de uma vida conjugal e do papel de mãe depois que os filhos saem de casa. Ela tem sonhos: conhecer a França, ama sua gastronomia , compra vinhos, baguetes , macarons e queijos, mas precisa escondê-los do seu marido que não apóia seu gosto. Por dormir em quarto separados, ali é seu espaço de degustação e sonhos. Agneta está se preparando para a aposentadoria, mas é demitida, depois de 25 anos de trabalho. Desempregada , a situação non-sense se acentua . Na busca por nova ocupação , Agneta, enebriada pelo vinho, lê o jornal e se candidata a uma oferta de emprego: cuidar de uma criança, na Provença.
E assim , enfrentando seus medos de viajar sozinha , sem falar francês, Agneta permite-se ir. Deste trecho em diante ,encerro meus comentários e convido à pessoa leitora a assistir a esse filme de auto-conhecimento , de escuta , de possibilidades de ser afetado pelo Outro em suas dores existenciais , de descobrir-se , de aprender a dançar, soltar o corpo , ao som de “Bravo , tu as gagné”,(The winner takes it all/ABBA), na voz de Mireille Mathieu, a exemplo; assumir a direção de sua vida. em especial , quando o tempo , em seu esplendor , não importa a idade , é um convite à vida. Agneta me faz lembrar todas as vezes em que eu disse sim e mudei a direção do meu destino, por outro lado , ela me faz lembrar, também, das vezes em que eu disse não , e segui buscando responder à questão insóluvel: E se? Chorei por esse misto de sentimentos, na gratidão ao Sagrado pela vida vivida e pelas possibilidades do devir deste maio,que ora se finda. Je m’apelle Terezinha!!!!
Barra-BA, 31 de maio de 2026
