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domingo, 3 de abril de 2022

Sobre a rede




                                               Sobre a  rede 



Mais que um signo da cultura dos povos primeiros , 
com seus saberes , suas cosmopercepçoes e
tecnologias do bem-viver,  a rede é uma 
sofisticada criação, pela sua relação, 
extensão , conexão com o físico e o metafísico. 
Rede lugar de repouso , retorno fetal . 
Útero elevado no tempo, suspenso.
Rede acolhimento de corpos indistintos
Justa concha, aconchego , abraço tecido em fios 
Lugar de (des) fiar pensamentos ..
Rede lugar de afago 
Embalo afetivo no ouvir a  canção do vento ...
Acalanto , acalmar!
Pra lá ...pra cá...
Fitar o firmamento 
Desenhar nuvens com a imaginação 
Guardar esse universo no fechar dos olhos ..
Ninar -se!
Pra lá... pra cá...!
Aninhar-se !
Sonhar!

(Acervo Teca Santos)

quinta-feira, 8 de março de 2012


Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.


Marina Colasanti

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Nature

Adelia Prado

CORRIDINHO



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O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.


Adélia Prado

sexta-feira, 17 de abril de 2009





ASHELL,ASHELL PRA TODO MUNDO, ASHELL


Elisa Lucinda




Ela mora num Brasil
mas trabalha em outro Brasil
Ela, bonita...saiu.Perguntaram: Você quer vender bombril?
Ela disse não.
Era carnaval.Ela, não-passista, sumiu
Perguntaram: empresta tuas pernas, bunda e quadris para um clip-exportação?
Ela disse não.
Ela dormiu. Sonhou, penteando os cabelos sem querer
se fazendo um cafuné sem querer
Perguntaram: você quer vender henê?
Ela disse nãâãão.
Ficou naquele não durmo não falo não como...
Perguntaram: você quer vender omo?
Ela disse NÂO.
Ela viu um anúncio da cõnsul para todas as mulheres do mundo...
Procurou, não se achou ali. Ela era nenhuma.
Tinha destino de preto.
Quis mudar de Brasil: ser modelo em Soweto.
Queria ser realidade.Ficou naquele ou eu morro ou eu luto...
Disseram: Às vezes um negro compromete o produto.
Ficou só. Ligou a TV
Tentou achar algum ponto em comum entre ela e o free:
Nenhum.
A não ser que amanhecesse loira, cabelos de seda shampoo
mas a sua cor continua a mesma!
Ela sofreu, eu sofri, eu vi.
Pra fazer anúncio de free, tenho que ser free, ela disse.
Tenho que ser sábia, tinhosa, sutil...
Ir à luta sem ser mártir.
Luther marketing
Luther marketing...in Brasil.

sábado, 1 de novembro de 2008

Cecília Meireles



Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.

Mujer Fenomenal



Maya Angelou



Las mujeres hermosas se preguntan
Dónde radica mi secreto.
No soy linda o nacida
Para vestir una talla de modelo
Mas cuando empiezo a decírlo
Todos piensan que miento
Y digo,
Está en el largo de mis brazos,
En el espacio de mis caderas,
En la cadencia de mi paso,
En la curva de mis labios.
Soy una mujer
Fenomenalmente.
Mujer fenomenal,
Esa soy yo.

Ingreso a cualquier ambiente
Tan calma como a ti te gusta,
Y en cuanto al hombre
Los tipos se ponen de pie o
Caen de rodillas.
Luego revolotean a mi alrededor,
Una colmena de abejas melíferas.
Y digo,
Es el fuego de mis ojos,
Y el brillo de mis dientes,
El movimiento de mi cadera,
Y la alegría de mis pies.
Soy una mujer
Fenomenalmente.
Mujer fenomenal,
Esa soy yo.

Los mismos hombres se preguntan
Que ven en mí.
Se esfuerzan mucho
Pero no pueden tocar
Mi misterio interior.
Cuando intento mostrarles
Dicen que no logran verlo
Y digo,
Está en la curvatura de mi espalda,
El sol de mi sonrisa,
El porte de mis pechos,
La gracia de mi estilo.
Soy una mujer
Fenomenalmente.
Mujer fenomenal,
Esa soy yo.

Ahora comprendes
Por qué mi cabeza no se inclina.
No grito ni ando a los saltos
No tengo que hablar muy alto. Cuando me veas pasar
Deberías sentirte orgullosa.
Y digo,
Está en el sonido de mis talones,
La onda de mi cabello,
La palma de mi mano,
La necesidad de mi cariño,
Por que soy una mujer
Fenomenalmente.
Mujer fenomenal,
Esa soy yo.

Maya Angelou

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Elisa Lucinda



Dá Licença, Bastiana?


Vim te pedir, mulher
seu filho um pouquinho
seu filho um cadinho
pra brincar comigo.
Ah, Bastiana é só por carinho
que vim te implorar
Juro! Não vou machucar
Ai, Tiana tá danado
Você pode compreender
eu vim pedir emprestado
esse fruto abusado
de sua enorme paixão
Eu não quero ter ele não
Se tiver posso perder
como já perdi a razão.
Eu vim pedir
teu curumim pra mim
por uns tempos longos por dentro
Quero ele só um pouquinho...
O quê?
Ele diz que pra mim não existe pouquinho?
Mas tá mentindo, Tiana,
você sabe, vou devolver...
Quero fazer com ele um filme pra televisão
Quero ir com ele cantar no Canecão
e a gente vira cinema
na cara de toda Nação
Ai, Bastiana, não diga que não!
Se ele chupou seus peitinhos
eu também quero
Lá em casa tem uma rede que é pra ninar ele
Se ele dormiu no seu colo
eu também quero
Ai, Tiana como te venero!
Parece apelação
mas é mais desespero de nega enfeitiçada
que sente no couro
o que é pedir para si
o filho dos outros.

Já sei:
A gente grava junto um disco
só pra tocar na sua vitrola.
No domingo ele ia pra aí
só pra comer do seu pudim
e molhar a boca na sua galinha ensopada
Eu deixava
Cheia de felicidade
Espalhada na cidade, num grande out-door
Pedindo pros deuses pra que falte dor
Ai, Tiana, open the door, por favor!
Eu até prometia:
a netinha, viria linda um dia
se você tivesse a gentilieza
de me emprestar essa represa
que é onde foi dar o meu coração.

Entenda Tiana:
Não quero tua solidão
e tampouco quero a minha
Essa é a situação.
Mas a culpa é sua!
Quem mandou fazer bem feito?
Os olhinhos puxadinhos
a boca, o umbiguinho.
a mão suave de armarinho
a voz e até o carinho.
Podia até ser caprichosa, mulher
sem precisar exagerar
Mas você passou da dose
fez acabamento
e até na pele ton-sur-ton.

Vim pedir teu filho um cadinho
pra brincar comigo até o sol nascer.
Eu vim pedir o seu.
Um dia vão levar o meu
sem nem pedir, sem nada.
Porque a gente é só mesmo mala
dessa tal criação
dessa tal criatura
e não vês a verdura desse meu olhar?

Ai, Tiana, me desculpe, eu vou entrando...
Me desculpe, eu vou levar.

Ana Paula Tavares


November without water



Olha-me p'ra estas crianças de vidro
cheias de água até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.

Olha-me estas crianças
transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até aos bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.

(O lago da lua)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

À Jacinta Passos

Jacinta Passos


Meu Sonho
O meu sonho
mais risonho
é suave e pequenino
resumindo entretanto o meu destino.
É de cor azul sonora
como o mar que longe chora.
É cor de infinito e de ânsia,
cor de céu, cor do mar, cor de distância.
Tem a leve suavidade
da saudade.
E a cantante doçura
de um regato que murmura.
Macio e encantador
É caricia de pluma e perfume de flor.
O meu sonho
mais risonho,
é para mim, cada momento:
o motivo maior de doce encantamento.

Voz feminina


TESTAMENTO (Alda Lara)

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...

sábado, 18 de outubro de 2008

Cristiane Sobral



NÃO VOU MAIS LAVAR OS PRATOS


Não vou mais lavar os pratos.
Nem
limpar a poeira dos móveis.
Sinto muito. Comecei a ler. Abri outro dia um
livro e uma semana depois decidi.
Não levo mais o lixo para a lixeira. Nem
arrumo mais a bagunça das folhas no quintal.
Sinto muito. Depois de ler
percebi a estética dos pratos, a estética dos traços, a ética, a estática.
Olho minhas mãos bem mais macias que antes e sinto que posso começar a ser a
todo instante.
Sinto.
Agora sinto qualquer coisa.
Não vou mais lavar
os tapetes.
Tenho os olhos rasos d'água.
Sinto muito. Agora que comecei
a ler quero entender o por quê, por que e o por quê.
Exintem coisas. Eu li,
e li, e li... Eu até sorri e deixei o feijão queimar.
E olha que feijão
sempre demora para ficar pronto...
Considere que os tempos agora são
outros...
Ah, esqueci de dizer: não vou mais.
Resolvi ficar um tempo
comigo.
Resolvi ler sobre o que se passa conosco.
Você nem me espere,
você nem me chame. Não vou.
De tudo o que jamais li, de tudo o que entendi,
você foi o que passou. Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto.
Desalfabetizou. Não vou mais lavar as coisas e encobrir as sujeiras inteiras,
nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para ali e de lá para cá.
Desinfetarei minhas mãos.
Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a
ler.
Sendo assim não lavo mais nada e olho a poeira no fundo do copo. Vejo
que sempre chega o momento de sacudir, de investir, de traduzir.
Não lavo
mais os pratos.
Li a assinatura de minha lei áurea.
Escrita em negro
maiúsculo, em letras tamanho 18, espaço duplo.
Aboli.
Não lavo mais os
pratos.
Quero travessas de prata, cozinha de luxo e jóias de ouro.
Legítimas.
Está decretada a Lei Áurea.

Elizabeth Bishop

One Art


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Permisso

          Permitir vem do verbo latino permittiére que significa “deixar seguir” ou “consentir”, dá licença para alguém fazer algo, autori...