quarta-feira, 24 de junho de 2020

Das recordações juninas...


Das recordações juninas ...



Há muito só restaram as lembranças de um tempo do São João,em Itapetinga. Essas recordações me levam de volta à infância e nela vejo minha mãe se preocupando com a necessidade de nossas roupas e sapatos. Assim, os meses que antecediam à festa, aqueles mais próximos, eram ritualizados pela ida à loja de tecidos e de calçados. Não que tivéssemos direito aos dois itens. Eu a acompanhava para escolher o tecido do meu vestido. Ali começava meu São João. Mesmo que essa ida às compras me trouxesse o dissabor de passar por uma ladeira íngreme, da qual eu morria de medo. Sempre me via caindo e essa visão me paralisava. Era um esforço imenso chegar à uma loja de placa pequena onde se lia o nome “Evereste”. Talvez tivesse esse nome por causa do monte. Não sei. Aquele ponto comercial, na subida e/ou descida, passou a representar para mim um dos desafios que eu deveria vencer na vida.

Essas lembranças me levam a algumas ruas com suas palhas de coqueiro , as fogueiras “armadas”, esperando o grande momento, e o colorido das bandeirolas que dançavam ao som do vento frio de junho. Do ar, vêm as lembranças sensoriais marcadas pelo cheiro doce do licor de jenipapo, do “quentão” misturado ao aroma dos bolos, ximangos, avoadores, dos “assados” e demais iguarias que fazem parte dessa gastronomia junina À noite, nossos olhos espelhavam o resultado dos fogos quando esses espocavam em luz e festa celeste. As crianças vizinhas, com seus pais cuidadosos na vigília das brincadeiras com as “chuvinhas” , “cobrinhas”, “traques” nos seus efeitos pirotécnicos e sonoros , dos quais eu e meus irmãos éramos espectadores.

Outra alegria, era sairmos, crianças em grupo, numa expedição pelas ruas próximas à nossa rua Itaberaba, perguntando: “São João passou por aqui?” Depois de decidir em qual casa perguntaríamos e quem teria a coragem de fazer essa ação. Felicidade era regressar com os olhos lacrimejantes pela fumaça, o riso solto, as mãos cheias de pedaços de bolo e aquele biscoitinho de goma que dissolvia e grudava no céu da boca, Da casa de D.Matilde e S.Tuca, a radiola a tocar: “Olha pro céu meu amor(...)”; “Com a filha de João, Antonio ia se casar (...)”. A noite terminava com a certeza de que no próximo ano tudo se repetiria. E eu estaria com um vestido novo, estampado com flores e bordado de esperanças.

Hoje, da minha janela olho pro céu. A fumaça do tempo deixou as saudades e a gratidão pelos dias idos e vividos. São lembranças que alentam ,mas que também fazem sofrer, em especial, pela recordação daquelas e daqueles entes queridos que já fizeram a passagem.Outras lágrimas causadas por outras fumaças.Entre elas, essa pandemia que acentuou separações, proibiu abraços, escondeu nossas faces, interditou caminhos, embaralhou os dias e nossas ideias.Sigamos, nos cuidando e na fé em novos dias para que, em tempos juninos vindouros, possamos ouvir nossa criança interior a nos perguntar: “São João passou por aqui?”.





Terezinha Oliveira Santos
24.06.2020

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020




                             Carnaval de Salvador: um recado, em baianês, para os turistas “desavisados”!!!

Rapaz! Se tem uma coisa que me deixa retada, é injustiça!! Aí, a mídia anuncia o carnaval de Salvador, mostrando a animação pré-carnavalesca e a pessoa vem me dizer que “ esse povo de Salvador só vive em festa”. Ora, pra bom entendedor ou entendedora, isso significa que o soteropolitano não tem o que fazer... ou aquela velha idiotice de que o povo baiano é preguiçoso. Dá vontade de “picarláporra...véi!"

Sendo assim, quem é que vai limpar as merdas, os xixis derramados pelos banheiros? Quem fará a comida para abastecer a vossa barriga, quando vocês chegam aqui, tudo esfomeados, por que não conhecem fartura? Quem tomará conta dos seus filhos mimados, mal-educados? Sim, porque têm muitas mães que só suportam os filhos na hora de tirar foto... são as babás, as “mães pretas” que sempre estão a postos. Estou mentindo? Quem cuidará dos seus pets? Todo mundo adora cachorro...sei, bem sei! 

Quem tomará conta da geriatria? Dos velhos e velhas caducas, que a maioria só diz gostar quando é para se aparecer no Facebook, ou pegar o dinheirinho da aposentadoria dos trastes!  Deus tá vendo sua extorsão!! Quem tomará conta daquele seu parente internado? Porque, às vezes, “as mizera”  dos parentes só adoecem na hora errada.  Quem vai abastecer os bares de bebida, lhe servir “mais uma”, a “de Jair” (crendesupai)? A “saideira”? Aguentar sua cachaça enjoada? "Rebâim de mizera!!!"

 Claro que estou falando do trabalho de uma galera que dá graças a Deus quando chegam esses dias.Apesar da humilhação. Sabe por quê? Porque precisam manter a dignidade, tantas vezes ameaçada em nome da limpeza étnica institucionalizada pelo biopoder...pela necropolítica! Se você já leu Achile Mbembe, Michel Foucault, sabe do que estou falando. Se é do tipinho que só busca as imagens nos textos, que lute para entender, “sinha disgraça”!!!   

Cada uma, viu?  

Ainda têm uns héteros que vêm loucos, de tudo quanto é lugar, alguns atravessam o Oceano, em busca do “negão” ou da negona (diabo de fetiche duzinferno!). O oposto também pode acontecer, claro! Vão se encontrar? Vão! Claro que vão, porque na cidade mais negra, fora de África, há corpos disponíveis e outros, não!  Depois de receber sacos no queixo, voltam, homofóbicos, para seus lares, para as “mulheres de Atenas” (será?) e ainda   saem  falando que não gostam de preto, que preto fede.. que é isso e aquilo. A quilo!  Me faça uma garapa, viu! 

Claro que estou falando de racismo, da hipersexualização das mulheres e homens negros, mas isso aí vocês já estão cansados de saber qual é a finalidade dessa estereotipia, nessa engrenagem da desumanização colonialista.. se você já leu Frantz Fanon me entenderá melhor, se não.. vá se informar, para não ficar igual ao ministro “boca de afofô”. Ministro da Educação! Kakaka! 

Eu quero é prova (esse é o outro, o conge) e um real de big-big...bang..bang! Estou pensando no edi de Queiroz! Rapaz! Deuzémais!!
Reflexões! Carnaval em tempo de “Covid-19”! Use máscara nessa cara de pau.. aí também, use camisinha!!
No mais, “(...) que bom você chegou!! “
Bem-vindo a Salvador....!

Terezinha Oliveira Santos
(Teca Santos)
14.02.2020






sábado, 1 de fevereiro de 2020


A imagem pode conter: 2 pessoas, incluindo Gean Santos, pessoas sorrindo, selfie e close-up


Casal texto


Em nossa vida acadêmica, somos "obrigados" a ler muitos livros . Às vezes, nessas leituras, não basta acessar a língua portuguesa. Temos que enveredar por outras compreensões das línguas estrangeiras. Isso é importante! São, também, demonstrações de conhecimento que transitam entre as relações de poder e as "fogueiras de vaidade", peculiares àquele ambiente. Entretanto, há lições, há textos que estão disponíveis no nosso cotidiano, impressos em gestos e, por pessoas comuns, pessoas ordinárias ou melhor, pessoas extraordinárias.

Graças ao Orun, tenho sido abençoada porque tenho esses textos bem perto de mim e, na alfabetização, nesse processo de (con)vivência , essas pessoas têm-me ensinado lições que não cabem em nenhum livro, não podem ser traduzidas por nenhuma ferramenta, analógica ou digital, porque escritas na linguagem do amor, com caracteres invisíveis, tamanho multidimensional, Fonte sentimental, capitular. Textos que só olhos que podem ver conseguem enxergá-los , compreendê-los, interpretá-los dadas às suas sutilezas. 
 
Esses textos requerem sensibilidade, sensorialidade e, quando digo "olhos que podem ver", estou me referindo à terceira visão,que paradoxalmente, pode ser acessada pelos visuais e pelos não-visuais. Das minhas leituras, destaco o casal/texto Édina Soraya(Dine) e Gean e nele vou corrigindo,ampliando, revendo minha compreensão da palavra cônjuge. Essa palavra pode nos provocar riso, quando a conectamos a uma certa figura pública, eu sei, mas, ela também pode-nos levar a reflexões. 

Dine e Gean me fazem acreditar na possibilidade das uniões. Não vou utilizar a palavra estável porque seria uma incoerência.Durabilidade e estabilidade são coisas diferentes. As uniões nunca são estáveis, porque sujeitas aos abalos íntimos e externos da sociedade, em especial, do núcleo familiar, em suas imperfeições, colaborações, problemas, soluções, confusões, tudo que faz parte do humano, do demasiado humano. 

Penso que Dine e Gean podem-nos ensinar que casamento é a soma de todos os medos, mais que nome de filme, isso significa que somos seres da errâncias e acertos, vitórias e fracassos , mas que juntos podemos encontrar o equilíbrio, ou equilíbrios. É preciso coragem! Casamento é mais que festa, álbum de fotografia, dancinha coreografada, festa parcelada em cartão de crédito até o Apocalipse. 

Gean e Dine, juntos, corajosos, têm-nos ensinado muita coisa e , nesse tempo que eles têm para se amar , é tanto amor, que ainda sobra sentimento para cuidar dos amigos.Juntos!
Esse texto é uma das formas que encontrei para expressar a minha gratidão, queridos! 
Muito obrigada!
 


#Saúde!
#Bençãos!
#Felicidades!

quarta-feira, 13 de novembro de 2019





 Novos corpos, velhas leituras


Do acervo Teca Santos (13/11/2019) @teka_olivei




Uma mulher negra, de meia-idade, sentada, com um livro nas mãos, em processo de leitura, ou com seus papéis e tecnologias a produzir seus textos, parece incomodar a muita gente, em certos momentos. É diferente a percepção quando estamos em outras atividades laborais, implicadas em servidão, a manusear outras ferramentas. Parece que não temos direito ao descanso, ao isolamento intelectual.  Há uma perversa semântica na amálgama desse corpo negro/mulher/trabalho. Quem já passou pelas experiências acadêmicas do Mestrado e Doutorado, sem licença profissional e cuidando da família, sabe muito bem do que estou falando. Uma mulher negra com uma pilha de livros e papéis em cima de uma mesa, também pode ser considerada uma louca, ou enlouquecerá de tanto estudar.


Ocupar o lugar de sujeito da nossa história é algo que desestabiliza a colonialidade das mentes ainda coloniais.  As leituras desse corpo negro intelectual exigem atenção, porque para muitos e muitas de nós, a consciência do racismo epistêmico é algo recente, em processo. Nessas leituras e interpretações, é preciso que seja respeitado o direito desse corpo mulher/negra/trabalho “não lavar os pratos”, no sentido poético da Cristiane Sobral; isolar-se num fim de semana com a cama recoberta de livros; não estar disponível para alguns eventos. Não é desleixo, não é ser mal amada, não é solidão. É uma relação diferente com o tempo. Um tempo que não tivemos e que nos é muito caro. É só um tempo de plantar. Assim, depois das mãos unidas, na força individual e coletiva do  “ninguém solta a mão de ninguém”, um dia, poderemos libertá-las  para a colheita. E essa será farta! Esse dia há de vir!





Terezinha O Santos (Teca Santos)

sexta-feira, 4 de outubro de 2019




 


Água das chuvas 

Quando eu era criança, tinha muito medo de chuva...
Qualquer chuva, mas em especial, daquela que  caía  à noite,
com relâmpagos e trovões...
Espelhos cobertos, vasilhas aparando as goteiras ...
Minha mãe dizia que o trovão era   voz de Deus, zangado,
porque fizemos alguma coisa errada. Em silêncio eu Lhe pedia perdão... 
e  lutava para o sono não me vencer naquela frágil vigília.
Tinha medo de a chuva destelhar a casa e a enxurrada nos levar para longe.
Nas noites de chuva,  chorava debaixo do cobertor,
 pensando nas pessoas que andavam pelas estradas, sem abrigo.
Pensava em meu pai que longe de casa trabalhava, nos trechos,
como um servidor público de um departamento de estradas e rodagens.
Será que estava molhado? Estava com frio?
A impossibilidade de saber notícias sua, naquele momento,
aumentava a quantidade das minhas lágrimas
e a dor era um  nó  em minha garganta.
Chuva memória!
Cresci!
A chuva continua a me trazer sentimentos tristes. 
Luzes e buzinas nessa cidade grande
Dentro do carro,pingos de chuva no pára-brisa..
Pessoas nos pontos de ônibus buscando abrigo
pés encharcados dentro dos sapatos...
A roupa molhada sobre a pele...cheiro de umidade
Frio no corpo e n`alma!
A chuva ainda a cair!
Sinto pelas pessoas que estão em  situação de rua 
Sinto pelas ruas e seus trapos, entulhos, dejetos sociais
E eu aqui,  ilhada, solidão
Chuva lamentação!
E essa  vontade imensa de estar em casa,
Se pudesse, você, meu edredom!
E a chuva passou no tempo  levando consigo as moradias
Casa (im)própia dos condenados!
Condenadas casas
Diluídas nos sonhos da alforria habitacional
Vidas soterradas! "Que sirvam de exemplo!", disse o alcaide
Não foi culpa da chuva.. ! Faltou a alvenaria, a viga.
O pobre sabe que  faltou a cidadania!

As águas volumosas e a chuva  têm de mim os mais 
puros sentimentos de medo e respeito
Pelas vidas que se foram para os reinos fluviais dos  encantados. 
Velho Chico, Opará!
Orar, orar pelos povos de quem lhes foram retirados o chão dos seus pés.
Tumbeiro de desterrados , entre o céu e o mar
E se chove?  Entre as águas, as lágrimas dos  ébanos transatlânticos,
one more time!
À deriva!
Redivivos em terras estrangeiras, quando se lhes acontece
 Em outras terras  (sobre)viverem!

E assim compreendo que essas águas são a metáfora da vida
Água nutriz que nos orna no lar uterino
Água início e fim..dialética
Águas benditas soluçadas nas preces sertanejas
Água profética que arrebenta a semente
Água planta
Água benfazeja...assim seja. Água!!
E essa sede de viver
E esse medo que nunca passam... !



Foto: William Ferreira Carvalho

terça-feira, 21 de agosto de 2018

                 De uma fã, com amor!




o sou dessas fãs que, enlouquecidas, gritam, desmaiam quando podem ver seus ídolos /ídolas  no mundo real, ali no palco, ou alhures. Não. Não sou! Preciso repetir essa negação que, paradoxalmente, traz em si uma afirmação. Portanto, estou mentindo. Minhas lembranças me traem, pois me comportei daquela maneira quando tive o prazer de, certa ocasião,  assistir a um show de Emílio Santiago, na Concha Acústica, em Salvador.

A emoção de estar pertinho do artista, cuja voz tocava fundo a  minh’ alma, acelerou meu coração, arrancou gritos da minha garganta, num frenesi de libertação e entrega. Obrigada, meu querido Emílio,  que tão cedo partiu para o Orum. Agradeço-lhe por despertar em mim a empatia e a solidariedade com aquelas e aqueles que têm a coragem de querer bem e, nesse bem querer, se permitirem a um instante de felicidade na artística presença e potência do Outro.

Atualmente, meus afetos estão partilhados entre três atores brasileiros: José Dumont, Irandhir Santos e Caco Ciocler. Não sei muito sobre os mesmos, enquanto homens ordinários. Não sou de ficar vasculhando suas vidas. Gosto. Gosto e admiração se confundem e tenho interesse por tudo que a eles dizem respeito, enquanto atores. José Dumont é um artista que traz em si uma força bruta como uma essência, a ponto da personagem e ator se confundirem, em especial, quando ele interpreta o sertanejo,  sua mais recorrente atuação, o que colabora para ator/personagem e paisagem mesclarem-se poeticamente. 

Seu último trabalho, em Onde nascem os fortes, foi para mim a sua mais bela metáfora com a interpretação de   Tião das Cacimbas e suas frases (des)conexas, mas não posso esquecer da personagem amarga, animalesca,  a fabricar e comercializar  rapadura na dura caatinga, no filme Abril Despedaçado. Poderia enumerar mais e mais trabalhos do Dumont, mas seria como andar em círculos. 

Meu segundo favorito é o Irandhir.  Gosto de Irandhir Santos pela calma do seu olhar. Sua expressão visual, independente da personagem, transborda uma ideia de tempo, como a água que lentamente move o moinho.  Há na sua essência uma sensualidade que está ali,  mas finge-se imperceptível, o que a acentua e imprime ao ator  um charme especial.  Entre seus inúmeros trabalhos artísticos, tenho carinho especial por Zelão, em Meu pedacinho de chão, representação que melhor o traduz no meu imaginário.


Caco Ciocler  é um dos meus preferidos, há muito. Gosto da sua versatilidade...das suas reinvenções para compor personagens. Gosto também do seu olhar e do sorriso que se inicia nos olhos e se espalha pelo rosto, ampliando sua beleza serena, escamoteada. Na cena da novela Segundo Sol, no capítulo de ontem, vi seu personagem, o Edgar,  transbordar-se em choro, mas um choro interno, um choro que, soluçado em engasgos,  revelava o  homem impotente diante das vicissitudes. A cena refletia muito de nós, brasileiras e brasileiros, nessa realidade caótica diante dos noticiários cotidianos e fatos circundantes. 

Portanto, esse é o trio de homens cujos nomes levam-me a assistir a qualquer produção na qual eles apareçam. Se um dia gostaria de encontrar-me com um deles? Não. E esse "não" significa dizer que a minha admiração é destinada ao que eles representam no meu imaginário afetivo e esse não tem nenhuma obrigação com a realidade, além do mais, concordando com o filósofo espanhol, Miguel de Unamuno, “que bela é uma laranja, antes de ser comida”. É isso. Quero apenas contemplá-los. Assim.


Terezinha Oliveira Santos. 21/08/2018


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O "Big Brother" e a vida!



Na aula de hoje, com a turma de Agronomia/Medicina Veterinária, entre tantas discussões, falamos sobre o Carnaval de Salvador a partir de um desabafo que fiz, quando afirmei o quanto fico “retada” ao ouvir que “baiano é preguiçoso”. Tratamos desses estereótipos, antes de começarmos a leitura, tendo como objeto de estudo o artigo de opinião “Cultura da Paz”, de Leonardo Boff. E assim, seguiu a aula, com exemplos de poder e dominação,  quando o programa Big Brother surgiu como um exemplo das porcarias que a Rede Globo oferece ao telespectador. Ouvi. E, após as falas, coloquei-me dizendo que não perdia aquele, que sempre que podia, estava lá, assistindo, vivenciando. Um aluno me disse, com cara de espanto: - A senhora é a primeira professora, daqui, que diz gostar do programa. Reafirmei que gostava e fui explicar o porquê.

Independente de saber que sua criação é inspirada no livro 1984, de George Orwell, vejo o entretenimento como uma metáfora da vida. Faço minhas analogias a partir das suas etapas: Participantes são selecionados e passam um tempo em confinamento. Podemos comparar essas ações com a concepção e o período de gestação a que estamos submetidos. Depois, num dia determinado, todos adentram a casa, individualmente, abrindo uma porta, o arquétipo da transposição, o nascimento,  e assim, inauguram com suas presenças o lugar onde viverão experiências, ora coletivamente, ora individuais. Por que é um jogo? Ora, porque, como diz Fernando Pessoa, o poeta português, “a única certeza é que não há certeza”. Ok! Você pode afirmar que há manipulação.Concordo, na vida, também pois, todos nossos planos precisarão do aval do ser superior. Tudo dará certo, se Deus quiser. Bom, se você for ateu, pode dizer que tudo está a cargo do Universo...de qualquer modo, você não controla zorra nenhuma. 

Dando continuidade ao meu raciocínio, lá no jogo, alguém se torna líder...experimenta as relações de poder mais de perto, vê quem lhe cerca com bajulações, quem lhe teme... e o medo é um dos mais fortes elementos de controle sobre alguém. O poderoso nutre-se desse sentimento, alimenta seu ego e, ao condenar alguém ao paredão, condena também a si mesmo. De novo, o medo. Então, é o medo que nos impele. E aqui trago um trecho de um discurso de Mia Couto, escritor moçambicano, em sua fala na Conferência de Estoril, em 2011, quando em sua citação de Eduardo Galeano, nos diz: "Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras. "E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe". 

Na cultura do medo, dentro do jogo, “os anjos” funcionam como seres que ajudarão os participantes, como um lenitivo, um bálsamo. Uma blindagem. No discurso judaico-cristão, temos nossos anjos da guarda. E temos as contradições. Anjos e monstros, o bem e o mal, as mentiras e as verdades, o amor e o ódio. Enfim,  a dualidade que nos acompanha vida a fora, além do  post-mortem, com seu céu/inferno, salvação/condenação. Ao final, alguém sairá com o prêmio. Será então o campeão do jogo. Ganhará. E aqui, precisamos refletir acerca do conceito dessa palavra. O que é ganhar? Para ganhar o que você perdeu? Ora, se faço a comparação do jogo com a vida, se a porta de entrada é a transposição para a vida, ao sair da casa, são vivos ou mortos? 

Saída. A luta agora é pela reencarnação.Com todo respeito à religião. Preciso dessa analogia para ilustrar a busca pela fama, pela continuidade da fama.  Alguns "voltam", numa novela, num programa qualquer, mas sempre ligados à vida passada, como um estigma. Em relação ao vencedor, se no pensamento filosófico, nenhum homem se banha duas vezes na água do mesmo rio, pois já não é o mesmo curso d´água, nem o sujeito é o mesmo, logo, independente de ser agora um milionário, esse campeão precisará se reinventar, renascer, agora, com medo de que o dinheiro acabe. Sendo assim, sob o signo do medo, o jogo continua. É a vida, em sua dialética. 

Profª Drª Terezinha Oliveira Santos
Com agradecimentos à Turma 01 de Oficina de Leitura e Produção de Textos Acadêmicos- Universidade Federal do Oeste da Bahia
Centro Multidisciplinar Campus de Barra.
Aula - 06/02/2018

@bigbrotherbrasil

@bbb24



Permisso

          Permitir vem do verbo latino permittiére que significa “deixar seguir” ou “consentir”, dá licença para alguém fazer algo, autori...