sábado, 30 de janeiro de 2021

                    Das seringas de vidro, injeção e gratidão.




    Neste contexto pandêmico, atualizado pela crise econômicas e conflitos imunológicos, observo as mãos que manejam as seringas descartáveis e essa mirada me transporta para Itapetinga-Ba, nos finais dos anos 60. Eu era criança e, vez ou outra, tinha crises de amigdalite para as quais, depois da ida ao médico, o “Benzetacil” era o antibiótico recomendado. Vale lembrar que nosso plano de saúde era representado por uma carteirinha do “Sasderba”. Após meu saudoso pai, S. Argemiro, (in memoriam), retirar uma autorização no DERBA. Com o receituário em mãos, era necessário ir à “Farmácia de S. Walter /Farmácia Sudoeste” coletar os preços de cada medicamento; voltar àquele departamento, pegar uma guia, retornar à farmácia para retirar os produtos, entre eles, a famosa injeção, o “terror dos terrores”, a “treva das trevas”.


    A próxima etapa era encontrar pela vizinhança uma pessoa que soubesse e pudesse aplicar a “inominável” numa criança: eu, a infeliz, cujo destino estava selado e dele não poderia escapar. Minha mãe, D.Mira, buscou ajuda pelas redondezas da nossa rua Itaberaba e voltou vitoriosa. Era o começo da noite quando aquele senhor adentrou minha casa. Na névoa das recordações, as imagens vêm sem as formas concretas, flashes, uma cena aqui e outra ali. Lembro-me da luz do candeeiro; lembro-me de uma embalagem de metal de onde foi retirada uma seringa de vidro; a água, a ferver, à espera daquele objeto; o aguardar pelo seu resfriamento; a prosa dos meus pais com o ilustre convidado; meu tormento; o cheiro do álcool derramado na caixa de metal; o fósforo riscado; uma chama azul a se destacar sobre a mesa; a agulha esterilizada; o preparo da injeção; o rápido elevar da seringa para expulsar o ar contido no líquido branco. Aqui, as lembranças se apagam. A mente tem suas estratégias de proteção.


    Em meio a essas lembranças, reflito sobre pessoas que são imprescindíveis e da maneira como pontuam a nossa vida, seja pelo consertar de um aparelho doméstico, por costurar uma roupa ao nosso gosto; pela sua arte culinária; pela sua habilidade artesã, enfim. Dentre essas pessoas, neste texto, quero prestar uma homenagem àquele senhor, cujo nome voltava à nossa casa, nas narrativas da minha mãe ao relatar fatos, especialmente, a luta e a dor dos pais quando veem os filhos a sofrer. Obrigada, Sr. Manoel Gusmão,(in memoriam). Agradeço e, nessa agência, homenageio a todas às mãos habilidosas que , de maneira direta ou indireta, com seus saberes técnicos e/ou ancestrais têm colaborado no cuidado e na cura de corpos enfermos, fragilizados pelos diversos males a que estamos expostos.


Salvador, 31/01/2021
Terezinha Oliveira Santos (Teca Santos)

sábado, 18 de julho de 2020

De um ponto comercial e seus doces...



Primeiramente, nos anos 70 , a mercearia ficava ali na rua Potiraguá, se localizava na esquina com a minha rua Itaberaba, depois, mudou-se para o lado oposto daquela rua e se instalou perto da casa de D. Adélia. Era uma casa comercial, com seus balcões de madeira, altos para a minha idade, de onde, em visão oblíqua, eu prestava atenção naquele senhor sempre sério a nos “despachar”. Aquele estabelecimento também representava as oscilações financeiras da minha casa. Minha mãe saía cedo para o rio Catolé, onde se juntava a outras lavadeiras em suas funções cotidianas de complemento da renda doméstica. 

Meu pai, funcionário do DERBA, geralmente estava pelos trechos, longe de casa, a trabalhar. Nos dias de dinheiro escasso, minha avó, a quem chamávamos afetivamente de “mãe véia”, juntava os valores ¬ gratificações que recebia das genitoras por rezar os quebrantos das suas crianças ¬ e me encarregava de ir comprar óleo, açúcar , café , a exemplo, em pequenas quantidades, ou a retalho como bem se diz. Minha mãe, ao chegar do rio, com as mãos castigadas pela água e sabão, encontraria num gole de café fresco um pequeno conforto.

 A ida à mercearia poderia ser feita num pequeno percurso, sempre sob as recomendações anciãs para “ir devagar”, “não correr”, não parar “na casa dos outros” e trazer o que se pedia. Frases imperativas parcialmente obedecidas. Para as crianças qualquer espaço geográfico pode se transformar no mais extenso e fantástico território. Ao chegar à “venda”, solicitava os itens recomendados e ficava a observar: a balança, os pesos sendo ajustados , o pó de café colocado sobre um papel pardo e os dedos hábeis de S. Vavá atando as pontas laterais da embalagem numa rápida dobradura que deixava o pacote em formato de uma meia lua. O mesmo acontecia com a embalagem do açúcar. O óleo, esse passava por um medidor e a quantidade depositada no copo dependia do valor mencionado pelo cliente. 

Ás vezes, na porta do estabelecimento, estava parado um caminhão e seu enorme baú, onde estava grafada em letra enorme a palavra “Neusa”. Havia uma beleza na distribuição estética desse substantivo e, especialmente, na sua letra “a”: essa vogal se estendia num prolongamento artístico enlaçando aquele nome e minha imaginação. Era o “carro dos doces”. Os homens a “descarregá-lo”, as caixas, os pacotes, a mercadoria que depois estaria exposta num baleiro __com várias divisórias de vidro e suas tampas de alumínio__ que girava como um carrossel a exibir seus doces coloridos em vários formatos e sabores: “Geleia”, “Maria-mole”, “peito de moça”, “atum”(risos). Tudo. Tudo e muito mais estava ali. 

Em casa, enquanto dormíamos, minha mãe ficaria parte da noite a passar a ferro. Talvez eu sonhasse e, no sonho,  saberia que , pela manhã, eu entregaria a roupa em seu destino e, se a patroa pagasse, minha mãe me daria moedas como uma pequena recompensa. A mercearia estaria a me esperar, eu correria pra lá, entraria... giraria aquele baleiro e, numa alegria inconfessável, diria: - Quero esse!





quarta-feira, 24 de junho de 2020

Das recordações juninas...


Das recordações juninas ...



Há muito só restaram as lembranças de um tempo do São João,em Itapetinga. Essas recordações me levam de volta à infância e nela vejo minha mãe se preocupando com a necessidade de nossas roupas e sapatos. Assim, os meses que antecediam à festa, aqueles mais próximos, eram ritualizados pela ida à loja de tecidos e de calçados. Não que tivéssemos direito aos dois itens. Eu a acompanhava para escolher o tecido do meu vestido. Ali começava meu São João. Mesmo que essa ida às compras me trouxesse o dissabor de passar por uma ladeira íngreme, da qual eu morria de medo. Sempre me via caindo e essa visão me paralisava. Era um esforço imenso chegar à uma loja de placa pequena onde se lia o nome “Evereste”. Talvez tivesse esse nome por causa do monte. Não sei. Aquele ponto comercial, na subida e/ou descida, passou a representar para mim um dos desafios que eu deveria vencer na vida.

Essas lembranças me levam a algumas ruas com suas palhas de coqueiro , as fogueiras “armadas”, esperando o grande momento, e o colorido das bandeirolas que dançavam ao som do vento frio de junho. Do ar, vêm as lembranças sensoriais marcadas pelo cheiro doce do licor de jenipapo, do “quentão” misturado ao aroma dos bolos, ximangos, avoadores, dos “assados” e demais iguarias que fazem parte dessa gastronomia junina À noite, nossos olhos espelhavam o resultado dos fogos quando esses espocavam em luz e festa celeste. As crianças vizinhas, com seus pais cuidadosos na vigília das brincadeiras com as “chuvinhas” , “cobrinhas”, “traques” nos seus efeitos pirotécnicos e sonoros , dos quais eu e meus irmãos éramos espectadores.

Outra alegria, era sairmos, crianças em grupo, numa expedição pelas ruas próximas à nossa rua Itaberaba, perguntando: “São João passou por aqui?” Depois de decidir em qual casa perguntaríamos e quem teria a coragem de fazer essa ação. Felicidade era regressar com os olhos lacrimejantes pela fumaça, o riso solto, as mãos cheias de pedaços de bolo e aquele biscoitinho de goma que dissolvia e grudava no céu da boca, Da casa de D.Matilde e S.Tuca, a radiola a tocar: “Olha pro céu meu amor(...)”; “Com a filha de João, Antonio ia se casar (...)”. A noite terminava com a certeza de que no próximo ano tudo se repetiria. E eu estaria com um vestido novo, estampado com flores e bordado de esperanças.

Hoje, da minha janela olho pro céu. A fumaça do tempo deixou as saudades e a gratidão pelos dias idos e vividos. São lembranças que alentam ,mas que também fazem sofrer, em especial, pela recordação daquelas e daqueles entes queridos que já fizeram a passagem.Outras lágrimas causadas por outras fumaças.Entre elas, essa pandemia que acentuou separações, proibiu abraços, escondeu nossas faces, interditou caminhos, embaralhou os dias e nossas ideias.Sigamos, nos cuidando e na fé em novos dias para que, em tempos juninos vindouros, possamos ouvir nossa criança interior a nos perguntar: “São João passou por aqui?”.





Terezinha Oliveira Santos
24.06.2020

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020




                             Carnaval de Salvador: um recado, em baianês, para os turistas “desavisados”!!!

Rapaz! Se tem uma coisa que me deixa retada, é injustiça!! Aí, a mídia anuncia o carnaval de Salvador, mostrando a animação pré-carnavalesca e a pessoa vem me dizer que “ esse povo de Salvador só vive em festa”. Ora, pra bom entendedor ou entendedora, isso significa que o soteropolitano não tem o que fazer... ou aquela velha idiotice de que o povo baiano é preguiçoso. Dá vontade de “picarláporra...véi!"

Sendo assim, quem é que vai limpar as merdas, os xixis derramados pelos banheiros? Quem fará a comida para abastecer a vossa barriga, quando vocês chegam aqui, tudo esfomeados, por que não conhecem fartura? Quem tomará conta dos seus filhos mimados, mal-educados? Sim, porque têm muitas mães que só suportam os filhos na hora de tirar foto... são as babás, as “mães pretas” que sempre estão a postos. Estou mentindo? Quem cuidará dos seus pets? Todo mundo adora cachorro...sei, bem sei! 

Quem tomará conta da geriatria? Dos velhos e velhas caducas, que a maioria só diz gostar quando é para se aparecer no Facebook, ou pegar o dinheirinho da aposentadoria dos trastes!  Deus tá vendo sua extorsão!! Quem tomará conta daquele seu parente internado? Porque, às vezes, “as mizera”  dos parentes só adoecem na hora errada.  Quem vai abastecer os bares de bebida, lhe servir “mais uma”, a “de Jair” (crendesupai)? A “saideira”? Aguentar sua cachaça enjoada? "Rebâim de mizera!!!"

 Claro que estou falando do trabalho de uma galera que dá graças a Deus quando chegam esses dias.Apesar da humilhação. Sabe por quê? Porque precisam manter a dignidade, tantas vezes ameaçada em nome da limpeza étnica institucionalizada pelo biopoder...pela necropolítica! Se você já leu Achile Mbembe, Michel Foucault, sabe do que estou falando. Se é do tipinho que só busca as imagens nos textos, que lute para entender, “sinha disgraça”!!!   

Cada uma, viu?  

Ainda têm uns héteros que vêm loucos, de tudo quanto é lugar, alguns atravessam o Oceano, em busca do “negão” ou da negona (diabo de fetiche duzinferno!). O oposto também pode acontecer, claro! Vão se encontrar? Vão! Claro que vão, porque na cidade mais negra, fora de África, há corpos disponíveis e outros, não!  Depois de receber sacos no queixo, voltam, homofóbicos, para seus lares, para as “mulheres de Atenas” (será?) e ainda   saem  falando que não gostam de preto, que preto fede.. que é isso e aquilo. A quilo!  Me faça uma garapa, viu! 

Claro que estou falando de racismo, da hipersexualização das mulheres e homens negros, mas isso aí vocês já estão cansados de saber qual é a finalidade dessa estereotipia, nessa engrenagem da desumanização colonialista.. se você já leu Frantz Fanon me entenderá melhor, se não.. vá se informar, para não ficar igual ao ministro “boca de afofô”. Ministro da Educação! Kakaka! 

Eu quero é prova (esse é o outro, o conge) e um real de big-big...bang..bang! Estou pensando no edi de Queiroz! Rapaz! Deuzémais!!
Reflexões! Carnaval em tempo de “Covid-19”! Use máscara nessa cara de pau.. aí também, use camisinha!!
No mais, “(...) que bom você chegou!! “
Bem-vindo a Salvador....!

Terezinha Oliveira Santos
(Teca Santos)
14.02.2020






sábado, 1 de fevereiro de 2020


A imagem pode conter: 2 pessoas, incluindo Gean Santos, pessoas sorrindo, selfie e close-up


Casal texto


Em nossa vida acadêmica, somos "obrigados" a ler muitos livros . Às vezes, nessas leituras, não basta acessar a língua portuguesa. Temos que enveredar por outras compreensões das línguas estrangeiras. Isso é importante! São, também, demonstrações de conhecimento que transitam entre as relações de poder e as "fogueiras de vaidade", peculiares àquele ambiente. Entretanto, há lições, há textos que estão disponíveis no nosso cotidiano, impressos em gestos e, por pessoas comuns, pessoas ordinárias ou melhor, pessoas extraordinárias.

Graças ao Orun, tenho sido abençoada porque tenho esses textos bem perto de mim e, na alfabetização, nesse processo de (con)vivência , essas pessoas têm-me ensinado lições que não cabem em nenhum livro, não podem ser traduzidas por nenhuma ferramenta, analógica ou digital, porque escritas na linguagem do amor, com caracteres invisíveis, tamanho multidimensional, Fonte sentimental, capitular. Textos que só olhos que podem ver conseguem enxergá-los , compreendê-los, interpretá-los dadas às suas sutilezas. 
 
Esses textos requerem sensibilidade, sensorialidade e, quando digo "olhos que podem ver", estou me referindo à terceira visão,que paradoxalmente, pode ser acessada pelos visuais e pelos não-visuais. Das minhas leituras, destaco o casal/texto Édina Soraya(Dine) e Gean e nele vou corrigindo,ampliando, revendo minha compreensão da palavra cônjuge. Essa palavra pode nos provocar riso, quando a conectamos a uma certa figura pública, eu sei, mas, ela também pode-nos levar a reflexões. 

Dine e Gean me fazem acreditar na possibilidade das uniões. Não vou utilizar a palavra estável porque seria uma incoerência.Durabilidade e estabilidade são coisas diferentes. As uniões nunca são estáveis, porque sujeitas aos abalos íntimos e externos da sociedade, em especial, do núcleo familiar, em suas imperfeições, colaborações, problemas, soluções, confusões, tudo que faz parte do humano, do demasiado humano. 

Penso que Dine e Gean podem-nos ensinar que casamento é a soma de todos os medos, mais que nome de filme, isso significa que somos seres da errâncias e acertos, vitórias e fracassos , mas que juntos podemos encontrar o equilíbrio, ou equilíbrios. É preciso coragem! Casamento é mais que festa, álbum de fotografia, dancinha coreografada, festa parcelada em cartão de crédito até o Apocalipse. 

Gean e Dine, juntos, corajosos, têm-nos ensinado muita coisa e , nesse tempo que eles têm para se amar , é tanto amor, que ainda sobra sentimento para cuidar dos amigos.Juntos!
Esse texto é uma das formas que encontrei para expressar a minha gratidão, queridos! 
Muito obrigada!
 


#Saúde!
#Bençãos!
#Felicidades!

quarta-feira, 13 de novembro de 2019





 Novos corpos, velhas leituras


Do acervo Teca Santos (13/11/2019) @teka_olivei




Uma mulher negra, de meia-idade, sentada, com um livro nas mãos, em processo de leitura, ou com seus papéis e tecnologias a produzir seus textos, parece incomodar a muita gente, em certos momentos. É diferente a percepção quando estamos em outras atividades laborais, implicadas em servidão, a manusear outras ferramentas. Parece que não temos direito ao descanso, ao isolamento intelectual.  Há uma perversa semântica na amálgama desse corpo negro/mulher/trabalho. Quem já passou pelas experiências acadêmicas do Mestrado e Doutorado, sem licença profissional e cuidando da família, sabe muito bem do que estou falando. Uma mulher negra com uma pilha de livros e papéis em cima de uma mesa, também pode ser considerada uma louca, ou enlouquecerá de tanto estudar.


Ocupar o lugar de sujeito da nossa história é algo que desestabiliza a colonialidade das mentes ainda coloniais.  As leituras desse corpo negro intelectual exigem atenção, porque para muitos e muitas de nós, a consciência do racismo epistêmico é algo recente, em processo. Nessas leituras e interpretações, é preciso que seja respeitado o direito desse corpo mulher/negra/trabalho “não lavar os pratos”, no sentido poético da Cristiane Sobral; isolar-se num fim de semana com a cama recoberta de livros; não estar disponível para alguns eventos. Não é desleixo, não é ser mal amada, não é solidão. É uma relação diferente com o tempo. Um tempo que não tivemos e que nos é muito caro. É só um tempo de plantar. Assim, depois das mãos unidas, na força individual e coletiva do  “ninguém solta a mão de ninguém”, um dia, poderemos libertá-las  para a colheita. E essa será farta! Esse dia há de vir!





Terezinha O Santos (Teca Santos)

sexta-feira, 4 de outubro de 2019




 


Água das chuvas 

Quando eu era criança, tinha muito medo de chuva...
Qualquer chuva, mas em especial, daquela que  caía  à noite,
com relâmpagos e trovões...
Espelhos cobertos, vasilhas aparando as goteiras ...
Minha mãe dizia que o trovão era   voz de Deus, zangado,
porque fizemos alguma coisa errada. Em silêncio eu Lhe pedia perdão... 
e  lutava para o sono não me vencer naquela frágil vigília.
Tinha medo de a chuva destelhar a casa e a enxurrada nos levar para longe.
Nas noites de chuva,  chorava debaixo do cobertor,
 pensando nas pessoas que andavam pelas estradas, sem abrigo.
Pensava em meu pai que longe de casa trabalhava, nos trechos,
como um servidor público de um departamento de estradas e rodagens.
Será que estava molhado? Estava com frio?
A impossibilidade de saber notícias sua, naquele momento,
aumentava a quantidade das minhas lágrimas
e a dor era um  nó  em minha garganta.
Chuva memória!
Cresci!
A chuva continua a me trazer sentimentos tristes. 
Luzes e buzinas nessa cidade grande
Dentro do carro,pingos de chuva no pára-brisa..
Pessoas nos pontos de ônibus buscando abrigo
pés encharcados dentro dos sapatos...
A roupa molhada sobre a pele...cheiro de umidade
Frio no corpo e n`alma!
A chuva ainda a cair!
Sinto pelas pessoas que estão em  situação de rua 
Sinto pelas ruas e seus trapos, entulhos, dejetos sociais
E eu aqui,  ilhada, solidão
Chuva lamentação!
E essa  vontade imensa de estar em casa,
Se pudesse, você, meu edredom!
E a chuva passou no tempo  levando consigo as moradias
Casa (im)própia dos condenados!
Condenadas casas
Diluídas nos sonhos da alforria habitacional
Vidas soterradas! "Que sirvam de exemplo!", disse o alcaide
Não foi culpa da chuva.. ! Faltou a alvenaria, a viga.
O pobre sabe que  faltou a cidadania!

As águas volumosas e a chuva  têm de mim os mais 
puros sentimentos de medo e respeito
Pelas vidas que se foram para os reinos fluviais dos  encantados. 
Velho Chico, Opará!
Orar, orar pelos povos de quem lhes foram retirados o chão dos seus pés.
Tumbeiro de desterrados , entre o céu e o mar
E se chove?  Entre as águas, as lágrimas dos  ébanos transatlânticos,
one more time!
À deriva!
Redivivos em terras estrangeiras, quando se lhes acontece
 Em outras terras  (sobre)viverem!

E assim compreendo que essas águas são a metáfora da vida
Água nutriz que nos orna no lar uterino
Água início e fim..dialética
Águas benditas soluçadas nas preces sertanejas
Água profética que arrebenta a semente
Água planta
Água benfazeja...assim seja. Água!!
E essa sede de viver
E esse medo que nunca passam... !



Foto: William Ferreira Carvalho

Permisso

          Permitir vem do verbo latino permittiére que significa “deixar seguir” ou “consentir”, dá licença para alguém fazer algo, autori...